V.E.G.A.S – O jogo interior do poder – por Luis Norberto Pascoal
Quando se fala em Las Vegas, a imagem imediata é a do brilho permanente, dos cassinos grandiosos, do dinheiro circulando sem descanso e da promessa sedutora de ganhos rápidos. Antes de se tornar símbolo mundial do excesso, porém, Las Vegas era apenas deserto. A legalização do jogo, em 1931, transformou aquela paisagem árida em um modelo econômico baseado na aposta, no risco e na convicção constante de que alguém sempre pode ganhar mais.
Essa lógica ajuda a explicar um fenômeno recorrente no mundo corporativo, político e até pessoal. O que pode derrubar pessoas bem-sucedidas raramente é a falta de inteligência ou preparo técnico. O que pode destruir valores inegociáveis, com frequência, é o excesso de um conjunto de forças, que podemos sintetizar na sigla VEGAS: Vaidade, Ego, Ganância, Arrogância e Soberba. São traços humanos comuns, e até necessários em doses moderadas, mas que, quando ultrapassam limites, deixam de ser impulso e passam a ser armadilha.
Quando a vaidade supera o propósito, a liderança se transforma em necessidade de aplauso. Quando o ego se torna impermeável, o contraditório deixa de ser ouvido. A ganância acelera riscos desnecessários. A arrogância corrói relações. A soberba cria a ilusão de invulnerabilidade. Nesse estágio, o sucesso começa a se deteriorar por dentro, muitas vezes de forma silenciosa.
É assim que empresários experientes assumem riscos desproporcionais. É assim que líderes políticos deixam de escutar conselhos prudentes. É assim que instituições entram em crise por decisões tomadas sob a convicção de que “nada dará errado”. O excesso de VEGAS costuma se manifestar em pequenos deslizes: justificativas morais para ações questionáveis, resistência a opiniões divergentes, crença de que os fins justificam os meios. Quando o erro se torna evidente, o dano já foi feito.
O fenômeno não se limita ao ambiente corporativo. Em diferentes partes do mundo, observam-se lideranças que confundem autoridade com dominação, ampliam conflitos ao rejeitar o diálogo e tratam limites institucionais como obstáculos pessoais. A história demonstra que trajetórias guiadas por esse padrão tendem a produzir rupturas e perdas coletivas. Ultimamente temos visto diversos exemplos políticos, onde o VEGAS está presente em seu nível máximo.
Mas se existe o risco do excesso, existe também o antídoto. O psicólogo e escritor Steven Pinker, em obras como Os Anjos Bons da Nossa Natureza, argumenta que o progresso civilizatório depende do fortalecimento das nossas melhores faculdades: autocontrole, empatia, cooperação e razão. São essas capacidades que nos afastam da barbárie, do impulso de vingança e da violência legitimada por ideologias.
Pinker alerta para armadilhas sutis. O desejo de justiça pode se converter em prazer de punir. A punição pode gerar sofrimento sem propósito. O pensamento de grupo pode suprimir a autonomia moral. Ideologias que prometem um bem ilimitado podem justificar violência ilimitada. Em escala coletiva, isso resulta em conflitos destrutivos. Em escala individual, resulta em decisões tomadas sob a influência do ego descontrolado.
Por isso, ética não é discurso abstrato, é prática diária. Não mentir. Não enganar. Não buscar vantagem indevida. Desenvolver autocontrole para antecipar consequências e inibir impulsos destrutivos. Escolher quem queremos ser, em vez de reagir automaticamente a instintos de dominância.
Viver com essa consciência exige autoanálise constante. Exige perguntar, com honestidade: minhas decisões contribuem para um ambiente mais equilibrado?
Estou preservando relações ou impondo vontades? O que ainda posso fazer para ajudar e construir algo melhor, independentemente da posição que ocupo?
O mundo contemporâneo enfrenta desafios ambientais, sociais e políticos complexos. Em todos eles, a diferença entre avanço e retrocesso passa pela capacidade de equilibrar ambição com responsabilidade, liderança com humildade e poder com princípios.
Las Vegas continuará brilhando no deserto como símbolo do espetáculo humano, mas o verdadeiro jogo acontece dentro de cada um de nós.
O sucesso sustentável não depende apenas de talento ou estratégia. Depende, sobretudo, da capacidade de manter o VEGAS sob controle.
No fim, não é o patrimônio que define a grandeza de uma trajetória. É o caráter.
Luis Norberto Pascoal é empresário e presidente da Fundação Educar
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