O tênis virou luxo?
Nossos pais, aos 20 e poucos anos, tinham um tipo de sonho que hoje parece quase conto de fadas: comprar uma casa, ter um carro, montar uma família.
Para a nossa geração – e aqui incluo millennials e gen z – esses planos não necessariamente desapareceram, mas foram empurrados para um futuro cada vez mais distante.
E o jeito que a gente compra demonstra isso muito bem. Hoje, a conta parece cada vez mais apertada. As peças das grandes redes de varejo ficaram mais caras, enquanto os salários não acompanharam esse movimento na mesma proporção.

Dependendo da marca, do modelo e da história por trás, um tênis pode custar o equivalente a uma parcela significativa do orçamento de uma pessoa. E quando um produto básico passa a exigir planejamento financeiro, alguma coisa mudou na nossa relação com o consumo.
É claro que sempre existiram produtos caros. A novidade é outra: a sensação de que o acesso está ficando mais distante mesmo nos níveis mais populares do mercado.
Trabalhar não garante mais a mesma capacidade de acumular patrimônio. O salário compra menos. A casa própria parece mais distante. O carro deixou de ser uma compra óbvia para muita gente. E agora até determinados bens de consumo, que deveriam representar pequenas recompensas do cotidiano, começam a parecer inacessíveis.
Some a isso a intensa oferta e ostentação de produtos nas redes sociais, que geram sentimentos intensos de comparação.
E quando o patrimônio material se torna difícil de alcançar, começamos a atribuir valor a outras coisas.
O luxo passa a ser tomar um café em um lugar bonito. Fazer uma viagem, mesmo que curta. Comprar produtos de skincare. Ter tempo livre. Conhecer um restaurante. Investir em uma peça de moda autoral. Viver uma experiência que produza alguma memória.
Não é que a nossa geração tenha simplesmente decidido que “não quer mais ter coisas”. Ela aprendeu a desejar coisas diferentes porque percebeu que os antigos símbolos de estabilidade ficaram mais difíceis de alcançar.







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