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São José dos Campos,22/07/2026

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'Playlist da Fossa': Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes?

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'Playlist da Fossa': Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes?
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Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes?
Não importa o gênero musical. Frases que relatam saudades, sofrência e recaídas estão na maioria das faixas que aparecem na lista das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no streaming no primeiro semestre de 2026.
O sertanejo de "dor de cotovelo", o trap melódico e as baladas pop confessionais mostram que o brasileiro adora sofrer acompanhado de uma faixa melancólica.
Versos como:
"Meu amor, por favor, fala que você também não me esqueceu" (trecho de "Apaga Apaga Apaga", de Danilo e Davi)...
...ou "O que eu mais queria era ficar contigo, mas você deixou meu coração partido" (trecho de "Coração Partido", do Menos é Mais)...
... e ainda "Ela foi embora, eu sofri muito, foi difícil ter o ponto final" (trecho de "Carnívoro", de MC Jacaré com MC Lele JP e MC Negão Original)...
...são alguns exemplos do sofrimento do eu lírico das canções mais ouvidas pelo brasileiro neste primeiro semestre.
Os personagens destas músicas estão tristes, arrependidos e/ou sofrendo. E isso pode ser o reflexo do que o ouvinte está sentindo, já que é bastante comum a busca de músicas tristes quando estamos tristes.
Mas por que isso acontece?
"Pode parecer estranho, mas quando a gente está triste, nem sempre a gente quer que alguém nos retire da tristeza. Muitas vezes, antes de a gente conseguir fazer isso, a gente precisa se sentir compreendido dentro daquilo que a gente tá vivendo", explica Pamela Magalhães, Psicóloga Terapeuta de Casal e Família e apresentadora do podcast Parece Terapia.
"E a música melancólica, triste, tende a funcionar como uma espécie de parceiro, companheiro emocional. Porque a música dá palavras, significado para aquilo que a gente ainda não consegue nomear, e que está permeando a nossa mente e ocupando o nosso coração. É como se a letra dissesse: 'eu sei como isso dói'."
Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes?
Ivan S/Pexels
Para a psicóloga, por trás deste comportamento está uma necessidade humana primária de buscar representação para que a dor deixe de ser solitária. Ela explica que, quando a gente escuta uma música que traduz exatamente o nosso estado emocional, a gente experimenta a sensação de validação e de pertencimento. Até por isso muitas pessoas costumam dizer: "Essa música foi feita pra mim."
Claro que, com as raríssimas exceções de pessoas que realmente foram homenageadas pelos compositores, a música não foi feita diretamente para aquele ouvinte. Mas algo íntimo e universal foi atingido dentro dele, fazendo com que ele sinta que, finalmente, alguém conseguiu traduzir sua experiência.
"E não significa necessariamente que a gente deseje sofrer mais. Significa que a gente encontrou um lugar seguro para sentir o que talvez estivesse tentando evitar, escondendo ou até sem conseguir explicar racionalmente, através da lógica."
"A música abre uma porta que permite a emoção entrar e sair. Por isso, muitas pessoas choram ouvindo música e depois sentem essa espécie de alívio. O choro não é necessariamente um sinal de piora."
"Há momentos em que a música não nos tira do fundo do poço, mas se senta ao nosso lado. E para quem tá sofrendo, deixar de se sentir sozinho já é o começo de alguma saída."
Patrícia Vanzella, professora da Universidade Federal do ABC e coordenadora do grupo de pesquisa Neuromúsica UFABC, cita que o que uma pessoa sente ao ouvir uma canção triste, em geral, não é tristeza pura.
"É um estado mais complexo, agridoce, de comoção. Por isso a experiência pode ser profundamente prazerosa sem nenhuma contradição."
"Isso acontece porque sabemos que aquela emoção está na música e não em um perigo real. É um ambiente seguro para experimentar sentimentos difíceis sem enfrentar suas consequências."
Emoções coletivas
Se ouvir as músicas de fossa no fone ou em casa traz acolhimento, o consumo coletivo pode ampliar ainda mais essa sensação de pertencimento.
Patrícia Vanzella destaca que entoar as "sofrências" em festas, bares, shows e encontros sociais, junto com milhares de pessoas pode produzir um efeito que parece paradoxal: dor virando festa.
"Sincronizar-se com outras pessoas aumenta a sensação de proximidade e pertencimento, e o canto coletivo é um exemplo particularmente claro disso. O sofrimento deixa de ser vivido solitariamente e passa a ser partilhado", afirma.
"Essa dimensão coletiva é anterior ao uso individual da música. Ouvir sozinho, de fone, é que é a novidade histórica. É provavelmente daí que vem boa parte do poder psicológico que a música tem sobre nós."
Público se emociona no show de Cassiane, no Festival Promessas, em Goiânia, Goiás
Reprodução/TV Anhanguera
Os altos e baixos na playlist e no mood
Ao fazer uma análise das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no streaming, o segundo tema que mais embala as faixas é o da farra e curtição.
Com isso, é possível fazer um paralelo com as "fases do luto", conceito popularizado pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross e que divide o processo do luto em cinco etapas:
Negação (choque inicial);
Raiva (revolta);
Negociação (barganha);
Depressão (tristeza profunda);
Aceitação.
Mas assim como não há linearidade nas fases do luto, os altos e baixos numa playlist que acompanha o emocional do ouvinte também não é contínuo.
"Uma playlist também pode revelar esse momento contraditório. Em um momento, a pessoa escuta uma música de saudade, por exemplo, abandono e sofrimento. E logo depois coloca uma música de farra, desejo, liberdade em excesso. Isso não significa necessariamente que ela superou."
“Pode significar que ela está tentando sair da dor, reagindo a ela, ou simplesmente numa tentativa de interrompê-la por alguns minutos, num protesto de alguma fase do luto que ela não consegue sair", afirma Pamela.
A psicóloga explica que a farra (seja na forma física ou na musical) pode representar vitalidade, celebração e retomada genuína da vida. Mas também pode funcionar como anestesia emocional, que é muito comum.
"Por isso que é tão importante perguntar: 'estou celebrando porque estou voltando a viver ou estou fazendo barulho para não escutar o que existe dentro de mim?"
Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes?
Darina Belonogova/Pexels
O 'detox' da fossa: Quando a sofrência vira morada
Algumas pesquisas mostram a relação entre a música e a regulação emocional. Isso porque as músicas estimulam neurotransmissores como:
a dopamina (responsável pela sensação de satisfação, prazer e recompensa);
a endorfina (responsável pela sensação de relaxamento e alívio da dor);
a ocitocina (responsável pela sensação de prazer e bem-estar);
e a serotonina (responsável pela sensação de felicidade).
Até mesmo a sensação de validação emocional tem relação com a liberação de neuro-hormônios como a prolactina e ocitocina.
"Isso faz com que se tenha uma sensação de certo alívio e acolhimento, que gera uma certa calma e a sensação de alívio. Então, biologicamente tem uma explicação por buscar [músicas tristes quando estamos tristes]", explica a Karolina César, Médica Neurologista do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas da FMUSP.
Embora haja essa conexão entre a música e o bem-estar (até mesmo no choro embalado pela música para a autorregulação), existe uma linha tênue entre processar a dor e se afogar nela. Se por um lado, uma música triste pode trazer acolhimento e movimentar a emoção, por outro, ela pode aprisionar e cutucar ainda mais as feridas.
"O fato por si só de ouvir músicas tristes não traz nenhum problema. O problema é o que vem acompanhado disso, como o isolamento pleno por períodos longos ou não querer conversar com outras pessoas", aponta Karolina César.
Quando o ouvinte passa dias escutando repetidamente as mesmas faixas doloridas para alimentar sentimentos de injustiça ou rejeição, a música entra em um processo prejudicial conhecido como ruminação mental.
"A pessoa escuta, revive, sofre, busca mais conteúdo semelhante e retorna ao mesmo pensamento sem produzir um novo significado, como quem tá num looping ali viciado", explica Pamela.
Patrícia Vanzella aponta que a música é um dos estímulos mais potentes que conhecemos para trazer o passado de volta.
"Se uma canção está intensamente ligada a uma experiência traumática ou a um relacionamento muito doloroso, ela pode funcionar como gatilho. E evitá-la temporariamente durante um processo terapêutico é uma estratégia clínica razoável e situacional", afirma Patrícia, ao ser questionada sobre a necessidade de retirada de alguma música da rotina de alguém que se reconecte com alguma fase ruim ao ouví-la.
"O que isso não significa é que exista gênero musical bom ou ruim, saudável ou nocivo. O que importa é a história daquela música específica na vida daquela pessoa."
Pamela faz um alerta sobre o risco de transformar o sofrimento em uma esfera masoquista.
"O problema pode surgir quando a música deixa de ser uma ponte de elaboração e se torna uma casa permanente do sofrimento. Algumas pessoas utilizam repetidamente determinadas músicas para reviver uma rejeição, alimentar fantasia, reforçar sentimentos de injustiça ou manter uma conexão emocional com alguém que já não está mais presente ou que não fazia bem."
Para fazer essa dissociação de como a música afeta o emocional, Pamela sugere uma simples pergunta:
"Depois de ouvir essa música, eu me sinto acolhido ou aprisionado? Eu sinto alívio ou rumino?"
"A música pode visitar a nossa dor. O cuidado está em não permitir que ela alugue um quarto definitivo dentro dela e fique por lá fazendo morada."
"Depois de ouvir essa música, eu me sinto acolhido ou aprisionado?"
Creativecrew/Pexels




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