De menina reprimida à transição aos 40 anos: mulher trans de São José conta trajetória de aceitação

Aine Tadini
Reprodução/Arquivo Pessoal
Aine Tadini sempre soube que era uma menina. Ainda na infância, ao experimentar uma sandália da prima, foi repreendida pela mãe e entendeu que precisaria esconder quem realmente era. Foram quase quatro décadas reprimindo a própria identidade até conseguir viver como sempre se reconheceu.
Neste domingo (28), quando é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, o g1 conversou com a moradora de São José dos Campos sobre a trajetória até conseguir se assumir mulher, aos 40 anos.
"Eu sempre me senti menina desde novinha. Quando experimentei aquela sandália e minha mãe mandou eu tirar, eu entendi que não podia usar as coisas que eu gostava porque eu tinha nascido no gênero com o qual eu não me identificava", relembrou.
Agora no g1
Ao longo da adolescência e da vida adulta, Aine tentou esconder quem era. Em casa, vestia roupas femininas escondida. Fora dela, buscava corresponder às expectativas impostas pela sociedade, mesmo sem se reconhecer naquele papel.
Reprimir a própria identidade também passou a afetar a relação com o corpo. Com o tempo, Aine chegou a pesar mais de 200 quilos e diz que só compreendeu durante a terapia que a obesidade fazia parte desse processo de autossabotagem.
"Era uma forma de me esconder. Era autodestruição e também uma tentativa de fazer com que ninguém descobrisse quem eu era."
O sofrimento emocional se agravou a ponto de ela perder a vontade de viver.
"Às vezes eu ia dormir rezando para o meu coração parar de madrugada. Quando eu acordava, chorava porque não tinha morrido."
Aine Tadini
Reprodução/Arquivo Pessoal
Um novo começo
A virada aconteceu durante um almoço, ao observar um grupo de idosos. Naquele momento, Aine percebeu que não queria chegar àquela idade vivendo uma vida que não era a dela.
Com o apoio da esposa, decidiu iniciar a transição de gênero. Fez a cirurgia bariátrica, começou o tratamento hormonal e passou a viver experiências que, para muitas pessoas, parecem simples, mas que para ela eram inéditas.
"Foi a primeira vez que saí maquiada, a primeira vez que usei salto alto na rua, a primeira vez que fui à manicure. Vivi muitas primeiras vezes."
Hoje, aos 50 anos, Aine diz que ainda se emociona ao olhar para a própria trajetória e comemora a relação que construiu com o próprio corpo.
"Hoje eu olho no espelho e fico muito feliz. Eu olho e penso: 'Cara, você conseguiu'. Minha vaidade está muito feliz."
O Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado em 28 de junho, marca a luta por direitos, respeito e igualdade da população LGBTQIAPN+ em todo o mundo.
Hoje, além de atuar como consultora de marketing estratégico, Aine integra a diretoria de uma organização que acolhe pessoas trans em São José dos Campos. O grupo promove ações de acolhimento, arrecada alimentos e roupas, incentiva a conclusão dos estudos, busca oportunidades de emprego e amplia o acesso da população trans a serviços e direitos.
"Demorei muitos anos para viver quem eu sempre fui. Hoje sou feliz por poder olhar no espelho e me reconhecer", resume.
(*Sob supervisão do g1)
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