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Jornalista Márcia Mara

Quando a Avenida se Afasta do Povo

Coluna de Marcia Mara questiona enredos que trocam tradição por provocação e alerta para o risco de o Carnaval perder sua essência popular

Reprodução
Quando a Avenida se Afasta do Povo reprodução

Coluna Social — Por Marcia Mara

Jornal V2R Notícias - 17.02.2026

Há alguns anos, falar de Carnaval era falar de união.
Famílias inteiras paravam para assistir aos desfiles, comentavam fantasias, sambas e carros alegóricos, e cada comunidade se orgulhava de se ver representada na avenida. O espetáculo não era apenas bonito — era reconhecível. As pessoas se enxergavam ali.

Hoje, porém, cresce a sensação de que parte das escolas de samba deixou de conversar com o público para tentar ensinar o público. E esse é um caminho perigoso.

O Carnaval sempre teve espaço para crítica social, para criatividade e até para irreverência. Mas havia um limite natural: o respeito por aquilo que é importante para quem está assistindo. Quando esse limite é ultrapassado de forma consciente, não se trata mais de expressão artística — passa a ser escolha ideológica.

E a reação popular não demora.

Muitos leitores relatam a mesma percepção: temas escolhidos já sabendo que irão causar incômodo em quem valoriza fé, família e tradição. Não é surpresa, depois, que a emoção dê lugar ao constrangimento e o orgulho seja substituído por distância. O público não se sente mais convidado — sente-se provocado.

Existe um equívoco recorrente em alguns setores culturais: acreditar que provocar é sinônimo de evoluir.
Não é.

A verdadeira evolução cultural acontece quando se amplia a identificação, não quando se reduz. Quando mais pessoas se reconhecem, não quando mais pessoas se afastam. Carnaval nasceu popular exatamente porque unia — não porque dividia.

Durante décadas, escolas emocionaram multidões exaltando comunidades, histórias locais, devoções religiosas, personagens brasileiros e valores que atravessam gerações. Era impossível assistir sem sentir pertencimento. Hoje, em certos casos, parece haver a substituição da celebração pela mensagem, e da mensagem pela militância.

E aí a festa perde sua essência.

A avenida pode até continuar cheia de luzes, efeitos e coreografias perfeitas, mas algo se quebra quando a plateia deixa de aplaudir espontaneamente. O silêncio do público é sempre mais revelador do que qualquer nota de jurado.

Escolas de samba são patrimônios culturais justamente porque nasceram do povo.
Quando passam a ignorar o sentimento majoritário desse mesmo povo, correm o risco de se tornar apenas espetáculo técnico — admirado por alguns, distante da maioria.

Carnaval não precisa ser neutro, mas precisa ser reconhecível.
Não precisa ser silencioso, mas precisa ser respeitoso.

Porque tradição não é atraso.
Tradição é o elo que faz uma geração ensinar a próxima a amar a mesma festa.

E, sem isso, não existe Carnaval — existe apenas desfile.




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