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São José dos Campos,06/04/2026

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Alvin L personificou a contradição de ter vivido entre risadas e de ter escrito versos impregnados de melancolia

g1.globo.com
Alvin L personificou a contradição de ter vivido entre risadas e de ter escrito versos impregnados de melancolia


Alvin L (1959 – 2026), compositor morto aos 67 anos, deixa obra musical repleta de versos tristes
Divulgação
♫ ANÁLISE
♬ Veiculada na noite de ontem, Domingo de Páscoa, a notícia da morte de Alvin L (1º de abril de 1959 – 5 de abril de 2026) surpreendeu e entristeceu o universo pop brasileiro. Ao celebrar a vida e o legado do cantor, compositor e guitarrista, parceiro de Dinho Ouro Preto e Marina Lima em grandes sucessos do pop nacional, os amigos destacaram o humor ácido de Arnaldo José Lima Santos, nome de batismo do artista.
Os depoimentos são unânimes em ressaltar as risadas de quem convivia com o divertido Alvin. E, nesse detalhe, pareceu residir a maior contradição entre a vida e os versos do poeta pop.
Se Alvin L viveu os 67 anos com alegria, fazendo os amigos rirem com observações astutas sobre o mundo, as letras escritas pelo artista – gay de existência sempre vivida com discrição, distante dos alardes midiáticos – foram quase sempre impregnadas de melancolia.
Se Alvin L extraiu humor do cotidiano no convívio com os amigos, o letrista poetizou a solidão, o amor irrealizado e a separação. “Às vezes eu quero chorar, mas o dia nasce e eu esqueço / Meus olhos se escondem onde explodem paixões / E tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar / Ou outra coisa pra lembrar”, cantou Marina Lima, realçando com precisão a melancolia dos versos de “Não sei dançar” (1991), obra-prima do cancioneiro de Alvin, autor da letra e da melodia.
A obra musical de Alvin L flagrou um poeta quase sempre em agonia, angustiado, à beira do abismo existencial. “A vida muda quando menos se espera / Pequenas doses de agonia e prazer / Na minha mão todo o medo do mundo / E certas coisas que eu prefiro esquecer”, confessou o poeta nos versos de “Hemingway”, música apresentada em 1994 pelos Sex Beatles (banda mais famosa dentre as formadas por Alvin a partir dos anos 1970), no primeiro dos dois álbuns desse grupo carioca que tinha como vocalista a cantora Cris Braun.
Na música, a solidão assombrou a vida do poeta. “Ninguém pra ligar e dizer onde estou / Ninguém pra ir comigo onde eu vou / Por outro lado / Ninguém pra abaixar o volume / Ninguém pra reclamar dos pratos sujos / Ninguém pra fingir que eu não amo”, relativizou Alvin nos versos de “Pra ninguém (Por enquanto)”, parceria com Dinho Ouro Preto gravada pelo grupo Capital Inicial no álbum “Rosas e vinho tinto” (2002).
É curioso perceber que, na longeva e frutífera colaboração com o Capital Inicial, iniciada no álbum “Todos os lados” (1989), Alvin L conseguiu imprimir algum peso existencial no repertório de uma banda vocacionada para fazer rock com leveza pop.
Em “Tudo que vai” (2000), parceria de Alvin com Dado Villa-Lobos e Toni Platão, música que se tornou hit e ajudou a renovar o público do Capital Inicial a partir dos anos 2000, o assunto foi a dor de uma separação, abordada em versos como “Eu fico à vontade com a sua ausência / Eu já me acostumei a esquecer / Tudo que vai / Deixa o gosto, deixa as fotos / Quanto tempo faz / Deixa os dedos, deixa a memória / Eu nem me lembro”.
Muitas vezes, a dor foi a do amor apenas vislumbrado e desejado, mas nunca efetivamente concretizado. “As suas noites são tão vazias / Eu quero todas e todos os dias / Nada disso, o tempo todo nem olhou pra mim / Eu sei que dizem que o amor é cego / O seu é surdo mas eu enxergo”, escreveu Alvin L na letra de “Alguém como eu”, música lançada por Dinho Ouro Preto em 1995 em álbum solo do cantor (a música foi regravada por Alvin em 1997 no primeiro e único álbum solo do artista).
“Onde está você? / É o que eu quero saber / Como se me descobrir / Só dependesse de lhe conhecer”, corroborou Alvin nos versos de “Cadê você?”, parceria com Lulu Santos, lançada há 30 anos por Lulu no álbum “Anticiclone tropical” (1996).
Enfim, Alvin L quase sempre expressou nas letras um sentimento de inadequação que talvez estivesse entranhando no fundo da alma do artista. Mas Alvin levou a vida com alegria e, nesse paradoxo entre criador e criação, reside um dos traços mais marcantes do legado do artista que ora sai abruptamente de cena para tristeza do universo pop brasileiro.

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