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São José dos Campos,04/10/2026

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Transcendência de Aldir Blanc como compositor popular se impõe no roteiro do documentário 'Resposta ao tempo'

g1.globo.com
Transcendência de Aldir Blanc como compositor popular se impõe no roteiro do documentário 'Resposta ao tempo'
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Aldir Blanc (1946 – 2020) é tema de documentário em cartaz no Festival do Rio 2026 com sessões hoje e amanhã, 4 e 5 de outubro
Reprodução / Vídeo
♫ CRÍTICA DE DOCUMENTÁRIO MUSICAL
Título: “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”
Direção e roteiro: Marcus Fernando e Hugo Sukman
Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2
♬ “Se não é nada parecido com divino, e eu não creio que seja, o ato de criar deixa você muito perto de uma espécie de transcendência”, argumenta Aldir Blanc, ateu, ao discorrer sobre a experiência de ser um compositor popular, em fala ouvida quase ao fim do documentário “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”, atração do Festival do Rio 2026, com sessões programadas para hoje e amanhã, 4 de 5 de outubro.
Se há algo que se impõe na tela e no roteiro ao fim da hora e meia do filme dirigido e roteirizado por Marcus Fernando e Hugo Sukman, é a transcendência de Aldir Blanc Mendes (2 de setembro de 1946 – 4 de maio de 2020) como compositor de música popular brasileira, exímio letrista de melodias criadas por João Bosco, Guinga, Moacyr Luz e Cristovão Bastos, para citar somente os parceiros mais frequentes e fundamentais.
Documentário de (apropriado) formato convencional, “Aldir Blanc – Resposta ao tempo” dá voz ao próprio Aldir ao perfilar o compositor através de falas e imagens de arquivo que descortinam os bastidores da criação do bardo carioca, Vasco “desde garotinho”, época em que, a partir de 1956, com dez anos, se tornou entusiasmado praticamente da masturbação. A propósito, umas das cenas mais marotas do documentário é a que flagra Aldir mostrando o “álbum da punheta” para o neto Vinicius.
“Não vim aqui para facilitar, não. Vim aqui para criar problema”, situa o poeta logo no início do filme da Girândola Produções.
Antes de propor um mergulho no universo criativo do compositor, o roteiro traça o perfil biográfico de Aldir Blanc, médico pós-graduado em Psiquiatria que abandonou a profissão e a fé em Deus em 1974 ao testemunhar, tão desesperado quanto impotente, a morte das filhas gêmeas recém-nascidas, Maria e Alexandra, esta com bastante agonia, sangue e sofrimento.
Para Aldir, que desde sempre alimentara a culpa de ter deixado a própria mãe com permanentes sequelas físicas e mentais ao vir ao mundo em parto complicado que durou mais de um dia, a saída foi se dedicar integralmente à música. Naquele momento, à música que fez nos anos 1970 com João Bosco, primeiro parceiro fundamental do poeta. O único milagre que o ateu Aldir reconhecia era a sincronia das ideias dele e de Bosco na arte de fazer música.
Cartaz do filme 'Aldir Blanc– Resposta ao tempo', de Marcus Fernando e Hugo Sukman
Divulgação / Festival do Rio 2026
Refeito o caminho do compositor até a música, o documentário abre a porta da criação do letrista para tentar desvendar a habilidade de Aldir Blanc para criar versos imagéticos, inesperados e incomuns que fizeram crônicas do Brasil urbano a partir do microcosmo do artista, situado na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Aldir nasceu no Estácio, se mudou aos três anos para Vila Isabel – bairro de Noel Rosa (1910 – 1937), compositor bamba, cronista urbano dos tempos em que Aldir nem existia – e se fixou na região da Tijuca. Lá, viveu entre a casa – onde geralmente escrevia as letras na cama, virado de lado – e os botequins. “Boteco é templo! É uma tradição viva do Rio de Janeiro”, caracteriza.
Para um letrista que afirma ter tido despertado o desejo de ser compositor em 1965 ao ver e ouvir Elis Regina (1945 – 1982) defender “Arrastão” (Edu Lobo e Vinicius de Moraes) em festival da canção, a transcendência da criação começou a se concretizar em 1972, ano em que a cantora gravou “Bala com bala”, artilharia disparada por Bosco e Aldir, dupla de compositores revelada naquele mesmo ano de 1972.
“Bala com bala” foi a primeira das quase 30 músicas de Aldir Blanc eternizadas na voz de Elis Regina, como o compositor contabiliza com orgulho em fala ouvida no filme. Outras músicas e intérpretes viriam. “Trabalho letrando a música que me é dada e não mexo em uma nota”, ressalta, em outra fala reproduzida no filme.
À medida que avança o documentário “Aldir Blanc – Resposta ao tempo”, fica evidenciado na tela o quanto o compositor considerava sagrado o instante da criação. “Naquela hora, naquele momento, ninguém pode mais do que eu”, dimensiona o compositor.
De temperamento arredio e por vezes sombrio, o bardo carioca parecia ficar menos nublado nos momentos divididos com os netos, com a companheira Mari Lúcia de Sá Freire – com quem manteve relação de dependência esmiuçada em outro documentário sobre Aldir Blanc apresentado no Festival do Rio 2026, “Fui olhar você dormir”, filme de Anna Azevedo – e no templo sagrado dos botequins.
E, sim, a melhor resposta dada por Aldir Blanc ao tempo – ainda que, ao fim do filme, ele próprio desmistifique a poesia do bolero de 1998 que intitula o documentário de Marcus Fernando e Hugo Sukman – foi ter sobrevivido à morte por covid, em março de 2020, aos 73 anos.
Como fica evidenciado enquanto rolam os créditos finais do documentário, Aldir Blanc Mendes transcendeu o tempo com o poder da criação.
A carteira de identidade de Aldir Blanc (1946 – 2020) é mostrada no documentário de Marcus Fernando e Hugo Sukman
Divulgação / Festival do Rio 2026




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