Motoboys de Santos denunciam supostos incentivos do iFood durante paralisação nacional
Entregadores afirmam que valores extras teriam sido oferecidos enquanto a categoria realizava o “Breque dos Apps”; movimento cobra mudanças na remuneração e na regulamentação do trabalho por plataformas
Reprodução Motoboys de Santos denunciam supostos incentivos do iFood durante paralisação nacional
Entregadores afirmam que valores extras teriam sido oferecidos enquanto a categoria realizava o “Breque dos Apps”; movimento cobra mudanças na remuneração e na regulamentação do trabalho por plataformas
Por Redação do Jornal V2R Notícias — 2 de setembro de 2026
Entregadores que atuam por aplicativos na Baixada Santista afirmam que o iFood teria disponibilizado incentivos financeiros durante a paralisação realizada nesta terça-feira (1º) por trabalhadores da categoria em diversas cidades brasileiras. O movimento, conhecido como “Breque dos Apps”, reúne motoboys e outros entregadores em uma mobilização por melhores condições de trabalho e mudanças na forma de remuneração oferecida pelas plataformas.
Entre as principais reivindicações está a criação de uma taxa mínima de R$ 10 para entregas de até quatro quilômetros. Os trabalhadores também defendem alterações no Projeto de Lei 152/2025, que trata da regulamentação da atividade dos entregadores por aplicativos, além de questionarem medidas adotadas pelas plataformas que, segundo eles, podem afetar a remuneração e as condições de trabalho da categoria.
Em Santos e outras cidades da Baixada Santista, entregadores relataram durante a manifestação que teriam recebido ofertas de valores adicionais para continuar realizando entregas justamente no período em que parte da categoria havia aderido à paralisação.
A denúncia também ganhou repercussão em São Paulo. Na capital, motoboys realizaram uma manifestação que passou pela Avenida Paulista e terminou nas proximidades da sede do iFood. Além das reivindicações relacionadas aos valores pagos pelas entregas, os trabalhadores fizeram críticas ao programa Mais Entregas, mantido pela plataforma.
Reclamação levada ao Ministério Público do Trabalho
A discussão não ficou restrita ao iFood. Uma representação encaminhada ao Ministério Público do Trabalho (MPT) também questiona supostos incentivos que teriam sido oferecidos pela 99Food e pela Keeta durante o horário dos protestos em São Paulo.
O documento foi apresentado por Elias Pereira Freitas da Silva Júnior, conhecido como JR Freitas, do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos. A representação solicita que o MPT investigue se os incentivos concedidos pelas plataformas poderiam ter o objetivo de diminuir a adesão dos trabalhadores ao movimento.
De acordo com o documento, os valores adicionais atribuídos à 99Food teriam variado entre R$ 3 e R$ 9 por entrega. Já a Keeta teria disponibilizado bônus durante a manhã, inicialmente até as 13h, com posterior extensão até as 14h.
Os trabalhadores pedem que sejam analisados os registros digitais das plataformas para verificar horários, regiões, valores e critérios utilizados para disponibilizar os incentivos. Também querem saber se as ofertas foram acionadas automaticamente pelos sistemas das empresas ou se houve algum tipo de intervenção humana.
A representação argumenta que é necessário diferenciar uma política normal de remuneração dinâmica de uma eventual estratégia adotada especificamente durante uma mobilização trabalhista.
Direito de paralisação é questionado
Os representantes dos entregadores sustentam que a oferta de pagamentos adicionais durante o movimento precisa ser analisada à luz do direito constitucional de greve e das normas internacionais relacionadas aos trabalhadores de plataformas digitais.
O documento encaminhado ao MPT também menciona uma decisão da Justiça do Trabalho de Sorocaba, proferida em março deste ano, que determinou que iFood, 99Food e LAM Tecnologia (Moblets) não interferissem em uma paralisação de entregadores, sob pena de multa de R$ 15 mil.
A representação solicita ainda que eventuais dados relacionados aos incentivos sejam preservados e que sejam adotadas medidas para evitar possíveis retaliações contra trabalhadores que participaram da paralisação.
Empresas apresentam versões diferentes
A Keeta negou que tenha utilizado bônus com a finalidade de enfraquecer a manifestação dos entregadores e afirmou respeitar o direito dos profissionais de realizar paralisações.
A 99Food, por sua vez, não havia apresentado manifestação sobre a denúncia até a publicação da reportagem de origem.
Já a Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia), que representa empresas do setor, afirmou que suas associadas respeitam manifestações pacíficas e mantêm canais de diálogo com os entregadores.
A entidade também declarou apoiar a regulamentação da atividade desde 2022 e afirmou que as plataformas trabalham para ampliar oportunidades de geração de renda com autonomia e melhorar as condições de atuação dos profissionais.
Até o momento, a existência de uma eventual estratégia coordenada para enfraquecer a paralisação permanece como objeto de questionamento e investigação, não havendo, portanto, conclusão definitiva sobre a finalidade dos incentivos relatados pelos trabalhadores.
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