D3cker te leva para dentro da ZN de Santos em novo álbum de rap: ‘Legado enorme’
Antes dos estúdios, shows e músicas acumulando milhares de reproduções, havia um garoto de 16 anos observando batalhas de rima. Quase dez anos depois, Murilo Bueno, conhecido artisticamente como D3cker, transformou o próprio lugar de origem em matéria-prima para o quarto álbum da carreira.
Hoje, aos 26 anos, o artista vive uma fase diferente. Nos primeiros dias após o lançamento de UMA QUEBRADA NO MEIO DO NADA, o projeto ultrapassou a marca de 100 mil reproduções apenas no Spotify e colocou diversas faixas entre as mais ouvidas do catálogo dele até agora. Mas essa história não é sobre números.
Ao VTV News, D3cker conta que o álbum não se apresenta apenas como uma sequência de músicas ou uma nova etapa profissional. Entre versos, referências e memórias, ele funciona quase como um registro afetivo da Zona Noroeste de Santos, no litoral de São Paulo, região onde o rapper nasceu, cresceu e vive até hoje.
Além da orla
Quando alguém de fora pensa em Santos, normalmente as primeiras imagens são senso comum: praia, jardins, prédios altos e a orla das construções tortas que se tornaram um dos cartões-postais mais conhecidos do litoral paulista. A questão é que a cidade também possui uma outra realidade, distante das fotografias famosas.
Na região compreendida como Zona Noroeste, histórias são construídas em meio a bairros que cresceram enfrentando desafios históricos. A área abriga o Dique da Vila Gilda, por exemplo, reconhecido como a maior favela sobre palafitas do Brasil – um território marcado pela desigualdade e, também, identidade comunitária. Só que o novo álbum de D3cker evita transformar a periferia em pano de fundo para discursos prontos.
Em vez disso, o artista, ao lado de Real Nage, tenta mostrar a região pelas memórias de quem vive nela.
“Uma Quebrada no Meio do Nada é um retrato da periferia da Zona Noroeste de Santos. Nesse disco a gente aborda as questões culturais que a gente traz aqui, na nossa cultura caiçara de periferia. Os bailes funks, o hip-hop, o trap, tentando mostrar a nossa originalidade”, contou em entrevista ao VTV News.
Tudo ou nada
Ao longo do álbum, Santos é citada em diferentes momentos. Em alguns trechos, as referências são diretas; em outros, de forma mais sutil, perceptíveis principalmente para quem conhece a cidade. Na faixa THE WEEKND, por exemplo, bairros de alto padrão entram na composição como elementos ligados à memória afetiva de quem cresceu na região. “A galera daqui vai sacar na hora. É algo que a gente cresceu vivendo”, afirmou o rapper.
‘Desde muito cedo, eu tô no tudo ou nada
Levo minha bebê pra gastar no Gonzaga
Se ela ficar enjoada, é na Ponta da Praia
Me sentindo bem é porque eu virei playboy
A minha cidade pede mais o D3ckerboy‘
THE WEEKND – D3cker, Real Nage, DR3AMS (2026)
A proposta vai além da identificação com a Baixada Santista: ao mesmo tempo em que criam uma conexão imediata com caiçaras, despertam curiosidade em quem nunca esteve lá. “Essa é a parte mais legal da construção do disco. A galera daqui sente algo bem regional, e a de fora pode querer conhecer a cidade”, afirmou.
Caiçaras são as pessoas com raízes no litoral que misturam tradições indígenas, portuguesas e africanas – isto é, gente que cresceu entre mar, pesca, histórias e um jeito bem próprio de viver a praia.
Talvez a frase que melhor sintetize essa ideia esteja justamente na faixa que abre o álbum. Em ELAS VIERAM, ELAS SE FORAM, o rapper canta: “Toda hora em SP, sempre tô levando Santos”.
Caminho construído
A relação de D3cker com a música começou cedo, ainda na adolescência. Segundo ele, o primeiro contato aconteceu por meio das batalhas de rima, ambiente que revelou artistas importantes para a cena do rap brasileiro e também ajudou a formar uma nova geração na Baixada Santista.

As batalhas de rima são disputas de improviso em que participantes criam versos na hora, respondendo ao adversário com criatividade, humor, crítica e rapidez. Curiosamente, o improviso não foi exatamente o caminho escolhido pelo artista. “Eu era muito ruim”, contou, rindo. “Nem batalhava. Fui direto para o estúdio”.
No início, o incentivo veio principalmente dos amigos, pois a recepção dentro de casa foi cautelosa, relacionada aos preconceitos que ainda cercam a cena do rap. “Minha família não apoiava tanto no começo. Tem aquela discriminação, as pessoas associam a várias coisas e acabam ficando preocupadas. Depois foram entendendo”.
O nome artístico também carrega uma referência pessoal. Inspirado no deck dos baralhos – conjunto de cartas usado em jogos e estratégias – e no rapper carioca Marcelo D2, um de seus ídolos, ele adaptou a escrita e trocou a letra “e” pelo número 3, criando o nome D3cker.
Hoje, olhando para seus mais de 16 mil ouvintes mensais e shows frequentes, ele fala sobre o começo quase como quem revisita fotografias antigas. “É ali que você descobre se quer mesmo aquilo. Seu olho brilha. Você sente paixão. Tem que ter um tesão para ficar dez anos fazendo a mesma coisa sem ganhar dinheiro”.
Estudando o rap
Se para muita gente a facilidade de rimar é ser talentoso, D3cker descreve o próprio processo criativo de uma forma diferente: quando decidiu seguir na música, transformou o rap em objeto de estudo. “Eu tratava o rap como uma faculdade. Tinha que estudar a história, entender quem deu certo e saber como os caras fizeram”.
Então vieram madrugadas assistindo entrevistas, documentários, pesquisas e uma observação quase obsessiva – mas compreensível – sobre artistas como Tupac, Notorious B.I.G. e Kanye West (hoje, YE). “Não acho que seja dom. O rap é muito treino. Vi muita gente que não era boa treinando, treinando e evoluindo”, afirma.
Talvez isso explique por que as músicas dele parecem caminhar entre dois universos ao mesmo tempo. Existe a ambição de quem fala sobre crescimento e oportunidades, mas também existe o garoto que ainda olha para trás enquanto segue em frente. “Ontem eles me olhavam estranho vindo da Zona Noroeste”, canta em ELAS VIERAM, ELAS SE FORAM. O verso pode até ser uma lembrança, mas, cá entre nós, é uma resposta aos estigmas.

Santos para onde for
Hoje, além das milhares de pessoas que acompanham seu trabalho nas plataformas digitais, D3cker também vê a própria Baixada mudar. Ele cita batalhas de rima, eventos culturais e artistas locais como parte importante dessa transformação. “O rap aqui está sendo muito bem visto. Esses projetos culturais são fundamentais”.
E tem novidade!
Enquanto UMA QUEBRADA NO MEIO DO NADA ainda acumula reproduções e transforma a Zona Noroeste em protagonista, Decker já pensa no próximo passo. Com exclusividade ao VTV News, o rapper revelou que prepara um novo álbum para este ano, batizado de Trap Popular Caiçara. O projeto deve trazer referências ao Charlie Brown Jr., outro nome que ajudou a transformar Santos em identidade musical para diferentes gerações.
“Temos um legado enorme nas costas. Charlie Brown, porra. A gente precisa honrar isso”, finalizou.
Até lá, quem quiser percorrer esse caminho entre Gonzaga, Ponta da Praia, Zona Noroeste e histórias que atravessam a cidade em forma de rima já pode ouvir o lançamento recente nas plataformas digitais. O “cria da ZN” também compartilha bastidores, novidades e próximos passos da carreira nas redes sociais (clique aqui).
Conheça a ZN de Santos
A Zona Noroeste, conhecida pelos moradores como ZN, é uma das principais regiões santistas e reúne 16 bairros, entre eles Rádio Clube, Castelo, Bom Retiro, Caneleira e São Jorge. Segundo dados da Prefeitura, a área concentra cerca de 120 mil moradores – aproximadamente 30% da população da cidade – distribuídos em uma região de cerca de 12 milhões de metros quadrados.
A região foi oficializada no ano de 1976, mas começou a ser ocupada muito antes, ainda durante o crescimento urbano e industrial de Santos (SP). Hoje, além das áreas residenciais, também abriga espaços de lazer, esporte e preservação ambiental, como o Jardim Botânico Chico Mendes, além de centros esportivos, comércio e equipamentos públicos espalhados pelos bairros.

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